terça-feira, 20 de outubro de 2020

Frances Ha: mas o que há em nós de Frances?

Foto: Bustle/reprodução



Vocês já assistiram a filmes inquietantes de roteiros simples, mas completamente identificáveis? Não consigo explicar melhor do que isso, mas acho que o exemplo pode soar melhor. Assisti hoje, por indicação de uma amiga, o filmes Frances Ha. De direção de Noah Baubamch, o mesmo de História de Um Casamento; e roteiro de Greta Gerwig em parceria com o Noah. A Greta, além de ser a protagonista, também foi responsável pelo roteiro e direção de Lady Bird, com direito a indicação ao Oscar - sendo uma das cinco únicas mulheres indicadas à categoria de Melhor Direção na premiação.

O filme, assim como Lady Bird, apresenta uma mulher forte e perdida - e está tudo bem. Na verdade, em ambos os casos, são mulheres que sabem o que querem fazer e onde querem chegar, mesmo sem necessariamente saberem se é a melhor escolha para suas vidas. E assim como a vida real, Frances e Christine (a Lady Bird) vivem uma sucessão de erros e acertos, de altos e baixos, de escolhas e renúncias, até encontrarem seu caminho.

Focando em Frances Ha, o filme tem uma pegada bem parecida com a proposta do cinema nouvelle vague, característico por roteiros livres, temas cotidianos, mais frames nas ruas do que em estúdios, liberdade estética - de movimento de câmera e de cortes, dentre outras coisas. Apresentado em preto e branco, nos levando de instantâneo a uma sensação nostálgica, o longa nos faz acompanhar a vida de Frances, seus sonhos, suas relações (que às vezes fracassam, como na vida real), sua vida profissional e seu relacionamento com essa Nova York sendo uma menina de Sacramento.

Fora do tido como padrão, considerada "inamorável" e apenas uma aprendiz de bailarina, observamos Frances ir do fundo do poço ao desabrochar da independência saudável, deixando para traz algumas relações e construindo outras durante o caminho (e até mesmo remodelando antigas); viajando para Sacramento e para Paris, sem expectativas e sem romantismos; sendo despejada, morando com amigos - e com outros nem tão amigáveis assim; se redescobrindo; abrindo mão do que acreditava ser o seu grande destino e se encontrando em lugares que jamais achou que lhe cabiam, de fato.

Frances acaba sendo uma personagem difícil de não se identificar, pelo menos em algum momento, pelo menos em alguma situação. Eu, particularmente, gosto de personagens assim, mais parecidos com o real, mais palpáveis. Que, ao mesmo tempo que nos permitem imergir num universo alheio ao nosso, também nos levam a repensar nossas próprias falhas e aceitar a normalidade presente nisso. Ninguém é igual, ninguém é perfeito e ainda bem, né?!

No fim das contas, Frances se descobre e se reconhece. Sua jornada de autoconhecimento é um processo que culmina no final do filme, mas a vida dela depois do autoencontro começa a partir do subir dos créditos. E, assim com a nossa, o viver de Frances vai estar naquilo que não vai ser mostrado. O dia a dia, de verdade, não cabe nas telas - nem mesmo nas dos cinemas.


Au revoir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.
emerge © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY Sadaf F K.