terça-feira, 27 de outubro de 2020

O conceito de Black Girl Magic e a potência negra no mercado da moda hollywoodiana

Foto: Netflix/Hollywood Reporter


Recentemente decidi que queria estudar mais sobre moda, sair da caixinha e ir além de somente entender de roupas, tecidos e combinações. Não é segredo para ninguém que a moda é um reflexo da sociedade e, a partir dela, é possível tratar de diversos assuntos, como política e causas sociais, por exemplo. Foi entendendo isso que resolvi ir mais além nessa área e é impossível não se apaixonar cada vez mais.

No último fim de semana fiz uma maratona de Next In Fashion, um reality com designers de moda da Netflix, e através dele fui apresentada a um outro, Styling Hollywood, protagonizado pelo Jason Bolden e seu esposo, Adair Curtis (obrigada, amifa). Logo no primeiro episódio, Jason nos apresenta a um conceito chamado Black Girl Magic e como boa curiosa que sou, fui pesquisar sobre.

Antes de falar sobre o conceito em questão, o termo é contextualizado no episódio a partir das mulheres com as quais o estilista trabalha, como Gabrielle Union, Yara Shahidi, Storm Reid, Taraji P Henson e Vanessa Hudgens, por exemplo. Cercado de mulheres não-brancas, Jason, enquanto homem negro e gay, usa da moda para empoderar mais ainda essas estrelas da lista A de Hollywood que são minorias sociais.

Ps: para quem não sabe, a mãe de Vanessa é filipina, logo, ela tem descendência asiática.

Através de um discurso de Michelle Obama, em 2013, CaShawn Thopson cunhou o termo #BlackGirlsAreMagic - que depois se transformou em apenas #BlackGirlsMagic. A frase surge com o objetivo de fazer uma apropriação positiva de um suposto misticismo associado aos negros. Mas, no caso, CaShawn vislumbrou ressignificar o termo para celebrar poder, expressividade, coragem, estilo, sucesso, beleza e todas as manifestações que permitem as mulheres negras de serem magníficas. Em 2016, Julee Wilson definiu a frase da seguinte forma: "é usado para conceituar aquela impressão de maravilhosidade universal que nós mulheres negras sentimos. É sobre celebrar tudo aquilo que nos inebria, inspirando ou nos surpreendendo sobre o que há de melhor em nós mesmas" - frase traduzida pelo Huffpost.

Ou seja, apesar das críticas que sofreu por parte de grupos negros que diziam que as mulheres negras não são mágicas, em alusão a serem seres místicos ou possuir poderes, de acordo com as subjetividades brancas, Garota Negra Mágica se refere a experiências palpáveis que nos tornam exatamente quem somos, individual e coletivamente. Seja arte, filosofia ou: moda, por exemplo. É uma celebração de uma tradição que permanece existindo e resistindo, mesmo diante das injustiças sociais e do racismo.

E Jason Bolden usa da moda para fazer essa celebração. Como ele mesmo diz, ele trabalha diretamente com várias dessas Black Girls Magic. Ele trabalha com a imagem delas e usa seu ofício para empoderá-las, abrilhantá-las e enfatizar ainda mais a força e poder que essas mulheres possuem.

As mulheres negras, últimas na pirâmide social, estão entendendo a importância de se unirem e celebrarem suas ancestralidades. Percebemos isso através do culto às raízes não só no vestuário, mas nas produções, nos trabalhos, nos discursos e nos posicionamentos. Yara Shahidi, as gêmeas Halle e Chloe Bailey, a própria Beyoncé, Rihanna, Viola Davis, Octavia Spencer, a Taraji, Michelle Obama, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Letitia Wright, dentre tantos outros nomes, nos remetem à mágica de carregar toda essa força e potência em nossos sangues.

E, todo esse discurso mesclando negritude e moda é para reforçar que graças a essas Mulheres Negras Mágicas, alcançamos mais um lugar de representatividade ao poder nos enxergar nos red carpets, por exemplo. Um lugar que parece bobo ou fútil, mas que diz muito ao se pensar em como a indústria cinematográfica de Hollywood se sustenta em esteriótipos patriarcais e racistas. Contudo, mais do que isso, é poder enxergar lugar não só no tapete vermelho, mas nos bastidores também, em posições que há muito dizem que não nos cabem. 

Bolden e Curtis são exemplos de negros bem-sucedidos, que além da cor da pele, enfrentam os desafios ligados à sexualidade e seguem perseguindo seus sonhos e desejos diante da sociedade. Inclusive, durante o Next In Fashion, Jason ressalta que sente, em diversas situações, a necessidade de ter que se impor, por ser quem é. Não é fácil, mas felizmente vemos cada vez mais exemplos que nos dizem que: é possível.

Além de Bolden, em Next In Fashion conhecemos Kerby Jean-Reymond, o designer haitiano-americano e fundador da marca Pyer Moss. Outro exemplo não-branco bem-sucedido na indústria da moda. Mas, quando eu falar sobre NIF, falo mais sobre ele.


Au revoir.

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