sexta-feira, 13 de novembro de 2020

São Paulo Fashion Week, Ronaldo Fraga, Paraíba e Zuzu Angel: o que tudo isso tem em comum?


Desfile Zuzu Vive by Ronaldo Fraga e com coprodução do Studio Asteri (Foto/Divulgação) 


No último domingo, há quase uma semana, houve o encerramento do São Paulo Fashion Week 2020, que aconteceu de maneira virtual, por conta da pandemia. Como último desfile da noite, o estilista mineiro, Ronaldo Fraga, entregou um material belíssimo não só em estética, mas também em discurso. Para entender a potência do desfile, é necessário voltar um pouco no tempo e conhecer a história de Zuzu Angel.

Zuleika Angel Jones foi uma estilista brasileira, nascida em Minas Gerais, considerada pioneira no uso de bordados e outros materiais artesanais no cenário da moda nacional e internacional. Tendo sido, provavelmente, a primeira estilista brasileira, Zuzu trabalhou com alta-costura e teve loja tanto em Ipanema, quanto em Nova York. Suas criações alcançaram tapetes vermelhos de Hollywood com estrelas como Liza Minelli, Joan Crawford e Kim Novak.

Mas, além disso, Zuzu Angel ficou conhecida no país e fora dele por usar a moda como ato político e de protesto. No período da Ditadura Militar no Brasil, o filho da estilista, Stuart Angel Jones, foi dado como desaparecido e a mãe, Zuzu, usava seus desfiles como gritos de denúncia ao regime que havia sequestrado, torturado e matado seu filho.

A mesma ditadura que matou Stuart, silenciou Zuzu. A estilista morreu em um "acidente de carro" e por muitos anos, a filha Hildegard Angel tentou provar que não havia sido um acidente, um deslize, um descuido. Em julho deste ano, a Justiça reconheceu que a morte de Zuzu foi causada por agentes militares da época, o ano era 1976, e a União precisou pagar indenização às filhas da estilista, Hildegard e Ana Cristina.

Há 20 anos, também em uma edição do São Paulo Fashion Week, o estilista Ronaldo Fraga prestou uma homenagem com a coleção "Quem matou Zuzu Angel?", que causou impactos na semana da moda nacional e se tornou um marco não só na carreira do designer, como também no evento. Mas, onde entra a Paraíba nessa história?

No começo de 2020, Ronaldo participou de uma ação em convênio com o Governo do Estado da Paraíba, através do Programa do Artesanato Paraibano (PAP), e com o Sebrae, para produzir uma coleção toda trabalhada na renda Renascença, típica do Cariri paraibano. A coleção nomeada de #SomosTodosParaíba foi lançada durante o Salão do Artesanato Paraibano, em janeiro, e ganhou destaques - sendo convidada a encerrar o último dia de desfiles do São Paulo Fashion Week, quando este ainda aconteceria presencialmente, em abril.


Look exclusivo da coleção Zuzu Vive (Foto/Ronaldo Fraga e Studio Asteri)

Com mais tempo e mais ideias, Fraga decidiu expandir a história que estava sendo contada sobre a Paraíba, para falar de Brasil. E, como o próprio estilista destacou, o coração dele pulsa hoje, onde o de Zuzu pulsava anos atrás. O resgate da memória de Zuzu Angel levantou questionamentos se seria uma releitura da coleção histórica de 20 anos, mas o estilista trouxe uma coleção completamente nova, com detalhes da renda Renascença e a famosa estampa de anjinho de Zuzu, repleta de brasilidade, com representações de indígenas, negros, transsexuais, homens e mulheres, por exemplo.

Durante a projeção, o tom foi de indignação e protesto. Questionamentos. Em uma conversa com Zuzu, convidada para um jantar, Ronaldo tenta colocar a estilista a par de como está o Brasil anos depois de sua morte. E é triste constatar que, o Brasil que matou Zuzu em 76, seria capaz de matá-la agora também. "Queria ter boas notícias. Estamos no mesmo ano em que você viveu", disse Ronaldo, durante o fashion filme.

Mas aí, enquanto a conversa é toda quebrando a quarta parede, trazendo um olho no olho e deixando Zuzu somente na imaginação; uma projeção de Zuzu Angel em 3D surge desfilando cada uma das peças da coleção nova, chamada de Zuzu Vive. A idealização do desfile digital contou com a coprodução do Studio Asteri, especializado no desenvolvimento de modelos digitais e editoriais de moda. A participação do Studio foi além da construção de Zuzu em 3D, mas os designers gráficos também tiveram que vesti-la com as peças de Ronaldo.

“Recebemos os croquis dele e reproduzimos oito looks em 3D. Alguns foram bem complexos, afinal, tivemos que desenhar a delicada renda renascença do cariri paraibano no computador. Com o cuidado, é claro, de fazer com que a textura fosse o mais real possível, afinal, estamos mostrando lançamentos relevantes de moda para o público”, contou o designer 3D e animador Gabriel Kemparski.

O Studio Asteri é um coletivo de designers com enfoque em arte 3D, que foi fundado em 2018. Além de Gabriel, Gui Naves e Will Lira são alguns nomes que já projetaram e produziram editoriais para marcas como Baw Cloting x MTV, NotEqual, de Fábio Costa, e o próprio Ronaldo Fraga. Em parceria com Ana Naves, diretora de Criação e Estratégias, o trio de designers lançou a primeira agência de modelos digitais das Américas. Chique, né?

A apresentação de Fraga no São Paulo Fashion Week terminou (bem como a semana de moda) com a cantora Cida Moreira e um piano de calda, performando a música Angélica, de Chico Buarque, feita em homenagem à Zuzu Angel.


"Quem é essa mulher

Que canta sempre o mesmo arranjo

Só queria agasalhar meu anjo

E deixar seu corpo descansar..."

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