quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

As urgências do passado e o afrofuturismo: é tudo pra ontem, o documentário de Emicida pela Netflix



Eu esperei alguns dias depois de ter assistido ele para vir aqui falar sobre. Senti que precisava processar, digerir, internalizar a mensagem antes de vir dar meus pitacos, mas a verdade é que desde que o último crédito subiu na tela preta, me sinto inquieta. "AmarElo - É tudo pra ontem" é uma dessas produções que faz a gente viajar, se reconhecer e entender um pouco de onde viemos. Apesar de não falar sobre qualquer pessoa, ele é para toda gente. Afinal, todo mundo precisa conhecer as boas novas da negritude para deixarmos o racismo um pouco mais para trás.

O documentário tem, na teoria, a missão de apresentar os bastidores e a produção do show do rapper Emicida no Theatro Municipal, do disco AmarElo. Mas, na prática ele faz bem mais do que isso. Na prática, ele é uma aula de passado, presente e futuro. Ou, como a divisão dos seus atos: de plantar, regar e colher. Da necessidade de compreender o ponto de partida para reconhecer o lugar em que está hoje e vislumbrar a linha de chegada - ou ao menos o horizonte.

A divisão dos atos um, dois e três me remeteram à própria divisão do disco que, como Emicida destaca, pode seguir uma interpretação de um despertar. Sonhou, acordou, foi viver e a vida do preto não é fácil, mas AmarElo não se trata só disso. Assim como destaca Beyoncé em suas produções, Emicida busca trazer mais do que as dores da população negra, ele se preocupa em mostrar para o seu público-alvo cercado de impossíveis, que as coisas são possíveis sim. As coisas, os lugares, as grandes obras. A escolha do Theatro Municipal foi proposital. A organização das músicas. A escolha minuciosa das parcerias. A equipe de produção, de vocais, de instrumentos. As narrativas do documentário. Está tudo carregado de escolhas propositais, de um olhar particular que somente quem é, sente e entende.

Falando sobre o Theatro Municipal, o rapper destaca no documentário que o local foi escolhido por ser entendido como um espaço majoritariamente branco e elitista; e a ideia do seu show era mostrar para a periferia que aquele espaço também é deles. Construído por mãos pretas, deve ser ocupado por corpos pretos também.

E em toda a narrativa do documentário, o Emicida reforça isso. Trazendo personagens que fizeram grandes coisas e lhe inspiraram a fazer essas tais grandes coisas também, a fim de criar um grande elo de pretos desenvolvendo grandes coisas - e sabendo que isso é possível. Portanto, a produção é mais do que os bastidores de um show, é uma aula de história e uma ode ao povo preto e àqueles que vieram antes de nós. Aos que se foram há um ou dois anos, ou a cem. Mas, também trata de futuro. Das perspectivas e das possibilidades. Dos caminhos que se abriram e se abrem - e de que mesmo que a sociedade tente nos silenciar, de alguma forma, como o caso de Marielle Franco; somos sementes e há sempre mais de nós a brotar (entretanto, PAREM DE NOS MATAR!).

A frase destaque do documentário, incluindo à alusão no subtítulo da produção é “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje”, e é exatamente este o resumo da história contada em costuras e tecelagens pelo rapper. Os problemas e as heranças do passado escravocrata precisam ser resolvidos hoje. São problemas que precisam ser solucionados com urgência e precisamos no hoje sanar essas pendências. Não há mais tempo. É tudo pra ontem.

O doc me inquietou e me encantou, me fez chorar e arrepiar, me relembrou - e reviciou - em música já conhecidas e reiterou a admiração gigante que eu tinha por esse homem - e pelo Fióti também, produtor do documentário. Ai, sei lá, assiste.

Não tem como descrever todas as sensações e emoções que o documentário causou, acredito que será uma experiência única e particular para cada pessoa. E eu torço muito para que tu opte por viver e sentir isso, vai ser massa. E que essa inquietude alcance mais pessoas, pois é ela que leva à grandes coisas. E nós podemos fazer grandes coisas. Nós podemos ocupar mais - e outros - Theatros Municipais.

A arte é semente: plantou, regou, colheu. Usemos isso a nosso favor.


Au revoir.

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