sábado, 3 de abril de 2021

Há beleza também no silêncio


Tem uma música que eu gosto muito - de uma banda que eu gosto mais ainda - que diz assim: "tá chovendo dentro dela quase que um temporal..." e tem sido dias assim por aqui. Dias em que o caos que está no mundo lá fora, me atravessam e transformam as coisas em caos aqui dentro também. Acredito que isso faz parte de quem eu sou (com mania de absorver tudo de todos), do meu trabalho (é meio difícil se desligar das notícias estando nos bastidores delas) e da situação do mundo mesmo, ainda mais do Brasil (quem não tá surtando, não tá entendendo), e tenho aprendido a lidar aos poucos.

O que eu quero dizer com tudo isso é que, devido a tanto caos, às vezes é complicado silenciar. Aquietar. Colocar a vida no mute e olhar pra dentro, entende? E foi isso que Sound of Metal me lembrou, me resgatou e me permitiu sentir. Traduzido no Brasil para O Som do Silêncio, o filme do diretor Darius Marder nos leva a um lugar de percepção da beleza das coisas através de um novo ângulo. O filme, como eu bem descrevi no Letterboxd, é de uma empatia inquietante e agoniante, em inúmeras vezes. A sonoplastia aliada à atuação de Riz Ahmed entregam um filme sensível, intenso e silencioso em vários momentos, nos trazendo reflexões sobre coisas da tela e coisas de dentro de nós também.

Acompanhamos a transformação na vida de Ruben, o protagonista, quando ele - um baterista de rock - se vê perdendo a audição quase que completamente; restando mais ou menos 20% em cada ouvido, conforme o filme mostra. A partir disso, ele precisa reaprender a viver, se entregando a compreender a vida a partir dos outros sentidos: da visão, do tato, do olfato e do paladar. Só que, além disso, ele precisa compreender a vida também a partir da audição, ou da falta dela.

A cena final do filme reforça essa mensagem. Depois de conseguir fazer uma cirurgia para implantar o aparelho auditivo que o ajudará a ouvir novamente, Ruben passa a conviver com os ruídos causados pelo equipamento. Dado momento, isso chega a ser incômodo - até para nós, telespectadores, já que ao longo do filme ouvimos o mesmo que ele - e é aí que ele percebe que é possível haver beleza no silêncio também. Os minutos finais do filme nos presenteiam com um silêncio contemplativo que olha mais para dentro de cada um de nós do que para a tela em si. O sol, as crianças, a arquitetura, tudo parece ter uma nova perspectiva através do silêncio. Assim é a nossa vida também.

Às vezes é preciso calar para ouvir. Nem que seja a voz de dentro.

Au revoir.

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