sábado, 12 de junho de 2021

Uma nota de repúdio aos amores difíceis




Eu sempre me considerei uma pessoa romântica, daquelas incuráveis, que acredita em amores arrebatadores e intensos toda vida. Mas, hoje percebo como somos ensinados a crer e esperar um amor difícil.

Para quem ainda não sabe, eu tenho um podcast junto com uns amigos, o Clube do Café da Manhã, e no episódio desse sábado indicamos filmes de romance para embalar esse dia dos namorados. Enquanto eu pensava nos filmes que iria escolher para recomendar na gravação, essa coisa do amor difícil ficou ainda mais clara pra mim.

O amor difícil é extremamente comercial. Vender essas ideias de ultrapassar todos os obstáculos, de precisar terminar e reatar, de ter que sofrer até dar certo, de uma série de brigas, da ideia dos opostos que se atraem, tudo isso é rentável para o cinema, às vezes para a música, para a literatura, mas custa muito caro para a vida real.

Crescemos bombardeados com esses ideias de amor e vivemos a vida toda esperando pelo romance da linha tênue entre o amor e o ódio, da pessoa que não vai ter nada a ver conosco, mas temos que fazer dar certo. A gente se nutre tanto do desejo pelo amor difícil, que supera tudo, que não acreditamos no potencial do amor leve quando ele cruza nosso caminho.

Digo isso porque estou cercada de pessoas incríveis que sofrem por pessoas que não as valorizam (ou valorizaram), que complicaram as coisas, que alimentaram mais o sofrimento do que o carinho... E essas pessoas acabam deixando passar despercebido outras possibilidades, porque a paixão é tão arrebatadora que cega e simplesmente fechamos os olhos para o que foge do que estamos acostumados.

Inclusive, recentemente a Bruna Marquezine deu uma entrevista falando sobre como precisou fazer terapia até entender que o amor não era algo conturbado. Que era para ser parceiro, tranquilo, na base do diálogo. A internet em peso idealizava como meta o relacionamento da atriz com o Neymar, mas olha no que deu. Entende?

Não estou dizendo aqui que no amor é tudo perfeito, longe disso. Na verdade, a imperfeição é um ingrediente essencial para o amor. O que eu quero dizer é que não é pra ser doloroso e sofrido. As brigas, os obstáculos e dificuldades vão existir sempre, mas no amor tranquilo há espaço para o diálogo. Nem tudo precisa ser uma briga que deixa com aquelas sensação de pratos quebrados e garfos arranhando.

Por tudo isso que citei aqui, eu tenho uma ~relação de amor e ódio~ com o filme Diário de Uma Paixão, porque ele vende essa ideia de que o amor é difícil. 

1) "Não concordavam muito. Na verdade, quase nunca concordavam. Estavam sempre brigando. E se desafiavam a cada dia. Porém, apesar das diferenças, tinham algo em comum. Estavam loucos um pelo outro."

2) "Não será fácil. E teremos de nos empenhar a cada dia. Mas quero fazer isso porque te quero. Quero tudo de ti, para sempre, você e eu. A cada dia."

As frases aplicadas em contextos diferentes do apresentado no filme podem até soar melhores, mas durante o longa-metragem, hoje elas me incomodam um pouco. Não quero estar com alguém para viver constantemente discutindo e que ter sempre a sensação de precisar me esforçar demais (não digo em questão de dedicação, mas em esforço mesmo) para conseguir estar junto, me entende? Tô exausta do amor difícil.

É por isso que, com o passar dos anos, meu filme de romance mudou. Porque a minha percepção do amor mudou. Continuo uma romântica incurável, mas hoje, quando idealizo algo a partir do cinema hollywoodiano, por exemplo, torço para viver algo semelhante ao retratado em Questão de Tempo (About Time, em inglês). 

Inclusive, foi a primeira das minhas indicações no episódio.

O filme não só retrata a naturalidade do se apaixonar, sem a necessidade do clichê do amor e ódio, mas com a leveza de viver um dia após o outro, de conhecer o outro, entender sua história, quem ele é, de aproveitar a rotina e não enxergar isso como um problema. Pelo contrário, "que bom estar junto há tanto tempo que temos uma rotina", sabe? Nem tudo precisa ser sempre uma cena épica de romance hollywoodiano. As sutilezas do dia a dia do amor marcam bem mais, acredito eu, pelo que já vivi e pelo que vejo em casais que tanto admiro.

E, em Questão de Tempo tem uma história secundária que trata exatamente tudo isso que falei aqui. Amores difíceis precisam de um basta. Foi por crescer enxergando esse tipo de meta de relacionamento que existe toda uma geração que se vulnerabilizou e envolveu em relações tóxicas e abusivas. Nos ensinam errado e depois nos julgam ao cair em poços sem fundos.

Nesse dia dos namorados, fico feliz de ver tantos amigos em relacionamentos saudáveis, vivendo seus amores leves e me dando mais ainda certeza que o amor não é difícil. A convivência pode ser seus atritos, afinal somos seres diferentes, mas as coisas são mais simples com o amor tranquilo. E, para aqueles que ainda sofrem e se encontram presos nas amarras de um amor passado, que machucou, que sofreu ou fez sofrer, que você se liberte disso um pouco mais a cada dia, é só uma 'questão de tempo'. Além disso, também se mostre disposto. O Amor é para ser leve, não esquece. Se abre para a vida e não deixa que o coração partido te blinde de sentir. Às vezes tem tanta gente nos amando do jeito certo e a gente insiste em olhar para o lado errado. Para de olhar para trás e enfrente, a vida é em frente.

Outro dia eu volto aqui pra falar sobre a minha segunda indicação nesse episódio do clubinho e sobre como está tudo bem os amores "caírem na rotina". 

Ps: Questão de Tempo está disponível na Netflix e o podcast Clube do Café da Manhã você encontra no Spotify, Deezer, Amazon Music e outros agregadores aqui.


Au revoir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.
emerge © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY Sadaf F K.